quarta-feira, 6 de outubro de 2010

PAI BOONMEE DÁ CHAPÉU

Madrugada de sábado na rua Joaquim Silva, Beco do Rato. Alguns gatos pingados no chorinho, algumas gotas pingadas de chuva e lágrimas. Pinga nos copos. Sede nas almas. A deriva nesta esquina de minha toca.
Chapeuzinho Vermelho passa por mim, sem me perceber. Só pode ser ela. Pago correndo a conta. Deixo troco e algumas perspectivas. Alcanço a rua, mas não minha paixão, que vira pelo avesso minha razão e a esquina da Augusto Severo. Chamo-a, mas no momento em que passa um carro de polícia prendendo minha respiração.
Chapeuzinho caminha, rebolando meus sonhos de um lado para o outro, centrífuga da libido. Salivo e tropeço em minha própria língua caída no chão, ao lado de uma guimba de cigarro e uma lata de cerveja ainda não recolhida. Reciclo minhas esperanças e grito minha urgência. Chapeuzinho se vira, amorenando meu mundo.
Do outro lado da rua, de trás de uma estátua clássica da Praça Paris, amoderna-se um vulto. É o Caçador, que pula a cerca da praça como um Matrix Nagô, atravessa a avenida em dois passos ignorantes de ônibus e outros travestis. Um Caçador Oriental, em trajes de Xangô. Pai Boonmee. Abominável usurpador, enlaça Chapeuzinho num beijo puto, levanta-lhe o capuz vermelho acima da cintura. Ai, meus pecados! Chapeuzinho, linda, só de capuz vermelho e uma ínfima calcinha de pele de lobo abatida ao dente.
Pai Boonmee lhe taca a mão naquela bunda pão-de-açucar. Perdi o bonde da história, diabético de afeto. Mas..., que rabo! Um rabo daquele, tão bonito, tão LAN, tão traveco! Chapeuzinho Vermelho, a Menina do Paraguai mais terrível da Augusto Severo. C'est vero!

Acordo suando alívio. Belo Horizonte. Na noite anterior, depois de 5 jogos, meu Galo venceu. Hoje, eleição com vitória garantida de Anastasia e Aécio. O que vim fazer aqui? Pego o celular para ver as horas e encontro um torpedo, cujo alvo, minha lógica:  Chapeuzinho Vermelho me dizendo que assistiu um filme ótimo no Festival do Rio. Que riu muito. Uma comédia finlandesa, com a presença ilustre do próprio diretor na sessão. Não diz o nome do filme. Não precisa. 'O Ciúme Mora ao Lado', de Mika Kaurismäki.
Definitivamente, homem algum jamais entenderá uma mulher. Quiçá, um Lobo Bobo.

Lobo Mauro

4 comentários:

  1. Simplesmente genial!

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  2. Por estas e outras que sou a favor do voto secreto e do comentário anônimo!
    Brigadim,

    Lobo Mauro

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  3. Muito Bacana, show !!! Como sempre digo: você escreve lindamente ..... não deixe o blog ir embora please, porque não posso lê-lo (será que é assim mesmo???) todo agora e penso que tem coisa boaa aí.....

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  4. Minina Lilian! Assim vc me deixa mais vermelho que o capuz da chapeuzinho, uai!

    Mas, oh, o blog vai ficar aqui, paradinho, pra vc ler. Acho que ele vai hibernar. E, talvez, acorde ano que vem, durante o próximo festival.

    beijocas

    Lobo Mauro

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